Polêmica na Bienal aumenta a venda de livros com temática LGBT nas livrarias

A tentativa de censura pelo prefeito Marcelo Crivella à HQ “Vingadores: A cruzada das crianças”, durante a Bienal do Livro, no último final de semana, direcionou os holofotes para os livros com temática LGBTQI+. Embora nem tudo resulte em vendas, é fato que a demanda por esses títulos cresceu no fim de semana.

Nas livrarias visitadas pelo EXTRA, o quadrinho “Vingadores: A cruzada das crianças” está esgotado. No entanto, isso não tem relação com o episódio protagonizado por Crivella. Segundo os lojistas das livrarias Saraiva e Blooks, o título não fazia parte do estoque há um tempo.

No entanto, a falta desse livro nas prateleiras gerou um aumento nas buscas nas plataformas online de venda. A Estante Virtual, por exemplo, registrou dez vezes mais procura neste mês – em especial no último fim de semana – em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo o portal, esse aumento pode ter ocorrido justamente pelo esgotamento do título nas livrarias.

Na Saraiva, em Botafogo, os funcionários observaram um aumento significativo pela procura de títulos LGBTQI+. A loja montou até uma estante voltada para a temática, inspirada pela campanha “Leia com Orgulho”, protagonizada por várias editoras.

— Antes, a procura era normal, mas desde o ocorrido na Bienal cresceu bastante. As pessoas não compram necessariamente, mas querem saber quais são os títulos, onde eles ficam na loja. Acreditamos que esse número de vendas ainda vai aumentar. É a expectativa — ressaltam os lojistas da unidade Botafogo.

Segundo a rede de livrarias, a venda de livros com a temática LGBTQI+, na semana de 1º a 8 de setembro, foi maior que o dobro do número de vendas registrado na semana de 25 a 31 de agosto, em contagem por todo o Brasil. Os mais vendidos são: “Com Amor, Simon”; “E se Fosse A Gente?”; “Boy Erased – Uma Verdade Anulada” e “1+1 – A Matemática do Amor”; Devassos No Paraíso – A Homossexualidade No Brasil, da Colônia À Atualidade”, respectivamente.

A livraria Blooks, também em Botafogo, já tem a tradição de montar mesas e prateleiras com temáticas de gênero e raça, entre outros. No entanto, a tentativa de censura na Bienal despertou em Marcelo Abreu, supervisor da unidade, a necessidade de montar uma vitrine com títulos com a temática LGBTQI+, inclusive os infantis, como “Olívia tem dois papais”.

— Na sexta-feira, estava acompanhando pelas redes sociais o que estava acontecendo na Bienal e senti que seria o momento de protestar também. É um absurdo — relata Marcelo — Coloquei desde os infantis até os clássicos, como “Devassos no Paraíso”.

O supervisor ainda acrescentou que, nos últimos dias, a vitrine precisou ser reconfigurada mais de uma vez porque alguns títulos acabaram sendo totalmente vendidos na loja, deixando “buracos” nas prateleiras, como o da foto.

Além da procura pela HQ, livros como “Problemas de Gênero”, “Manifesto contrassexual”, “Ao sair do armário entrei na velhice” e “Além do Carnaval” tiveram um aumento no número de vendas. Alguns deles, inclusive, foram reservados pelos leitores por telefone. Segundo funcionários da Blooks, muitas pessoas entraram na livraria buscando esses títulos com medo de que saíssem de circulação por conta de possíveis censuras no futuro. Foi um efeito manada para formação de estoque.

— É um reflexo, sem dúvida. O nosso público abraça muito, a resposta é boa. Eles parabenizam as iniciativas, compram bastante. A livraria é um lugar de protesto e resistência — ressalta Marcelo.

DVDs com a temática LGBTQI+ também ganharam destaque na venda do final de semana na livraria. “Boys”, por exemplo, vendeu 19 unidades contra cinco do último mês.

‘SAÍ DA BIENAL COM TODOS OS MEUS LIVROS ESGOTADOS’

Vinícius Grossos é dono de quatro livros com temáticas LGBTQI+, entre eles, “O Garoto quase-atropelado”- um dos títulos presentes na iniciativa do youtuber Felipe Neto, que distribuiu cerca de 14 mil títulos com a temática na Bienal após a censura do Crivella. “1+1 – A Matemática do Amor”, também de Vinícius, é o terceiro livro mais vendidopela Saraiva no Brasil. O autor estava na Bienal, no sábado, quando a ameaça de censura foi feita.

Vinicius conta que tem acompanhado pelas redes sociais que muitos leitores estão apoiando a causa, comprando os títulos, os indicando publicamente e compartilhando fotos. Na Bienal, ele observou que muitos não conheciam o seu trabalho, mas compraram os livros apenas por conta da “proibição”.

— Eu saí da Bienal com todos os meus livros esgotados. Foi assustadoramente belo a forma como as pessoas procuravam consumir minhas narrativas, apenas por causa da censura do Crivella. Acho que todo mundo sentiu um pouco de empatia nessa hora, e decidiu comprar os livros antes que eles fossem silenciados, de alguma forma. Eu me vi em uma montanha-russa de sentimentos. Me senti triste, esgotado e pessoalmente atacado pelo prefeito. Mas a onda de amor que veio em troca foi absurdamente maior — conta o autor.

Segundo a Panini, o livro “Vingadores, A Cruzada das Crianças” que estava vendendo na Bienal é uma edição antiga da coleção Marvel da editora Salvat. A Panini lançou o título similar em 2012, parte de uma edição intitulada “Vingadores Especial 1”, que, no momento,está fora de estoque.

11/09/2019